24/06/2010
Alunas formadas em Jornalismo pelas FRB emplacam perfis no mais importante site brasileiro de narrativas sobre a vida real
Eteni Barbosa e Anna Carolina Neto, jornalistas formadas em 2009 pelas FRB, tiveram seus textos selecionados e publicados pelo site Texto Vivo, maior e mais conceituada revista eletrônica de narrativas da vida real do país. Em parceria com a Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), o Texto Vivo só dá espaço para trabalhos de alta qualidade, e escolheu “O casamento de Catarina” e “Débora no farol” para abrir a edição deste mês de junho.
As jornalistas escreveram, no último ano da faculdade, sobre duas mulheres e suas incríveis jornadas de superação: uma delas foi vítima de estupro, sendo que deste ato violento nasceu seu filho. A outra, em sua cadeira de rodas, pede esmolas num farol e ensina como dar um “chega pra lá” no preconceito. Perfil é um gênero jornalístico em que o autor busca “desenhar” com palavras um breve pedaço da vida de pessoas, lugares ou até de uma época.
“É difícil ser mulher! Será?” Esta é a chamada do site, que remete aos perfis produzidos na disciplina Edição 3, conduzida por Renata Carraro.
“Está consolidada a parceria da Rio Branco com o Texto Vivo, ou seja, todo semestre os melhores textos produzidos entrarão no site, e lá só entra coisa boa”, alegra-se a professora. Renata é autora de várias obras na linha do Jornalismo Narrativo ou Literário, que utiliza técnicas da literatura para a produção grandes-reportagens ou livros-reportagens.
Confira a seguir trechos dos perfis produzidos por Anna e Eteni. E para ler os textos na íntegra, acesse www.textovivo.com.br.
Débora no farol
Anna Carolina de O. Neto
Tarde de sol, num dia de semana. Como todos os outros dias, Débora está lá, no farol, sentada na sua cadeira de rodas, vendendo suas balas de goma. Carros e mais carros passam pela Av. Marquês de São Vicente e, como num passe de mágica, uma nota de cinqüenta reais aparece em suas mãos.
Como uma criança que ganha um doce ou um adolescente que recebe o primeiro salário, Débora fica surpresa e feliz ao faturar de um motorista, no farol, a tal nota. Logo, já sabe o que fazer. “Não é todo dia que se pode comer numa churrascaria.” A escolhida é uma que fica na mesma avenida.
O que Débora não imaginava era pelo que iria passar logo mais.
Com o dinheiro bem embrulhadinho dentro da mão fechada, ela entra na churrascaria. Tenta entrar, porque o segurança a barra na porta.
- Preconceito, para mim, é eu entrar num lugar e me colocarem pra fora.
O gerente seria a sua salvação.
Ela só quer gastar os seus cinqüenta reais num rodízio delicioso de carnes.
Mas aquele que deveria salvá-la também a impede de entrar.
Débora precisa da ajuda de alguém com bom senso. Ela só quer comer um rodízio delicioso de carnes. O dono da churrascaria vem ao seu encontro, e, envergonhado, demite o segurança por justa causa e a convida para entrar.
- Almocei de graça, sem medo de ser feliz!
Débora Bispo Soares, 31 anos, já sofreu muito preconceito na vida, mas não leva desaforo para casa. Para superar tudo isso, enfrenta quem a rejeita.
- Eu chamo a polícia, processo, corro atrás dos meus direitos.
Foi o que aconteceu no começo de 2009. Ela estava se sentindo um pouco gordinha, então comprou alguns produtos da Herbalife para tentar emagrecer.
O prédio fica localizado na Lapa e é lá que ela ía tomar os seus produtos, atendida por uma moça chamada Vânia. Nesse dia, o elevador estava quebrado, então Débora interfonou para que a vendedora descesse até o térreo. O dono do prédio, desconhecedor de todos os direitos de um cadeirante, ordenou que ela saísse imediatamente.
- Não vou sair. Eu paguei por um produto e estou aqui para tomar o que paguei.
O homem, sem a mínima educação, puxou a cadeira de rodas, o que fez com que Débora fosse lançada para trás.
- O líquido que eu estava bebendo caiu todo na roupa do homem e ele deu um tapa na minha cara. Abri um boletim de ocorrência, porque isso é discriminação.
E é assim que Débora supera os preconceitos que atravessam sua vida. Boa de lábia, bem humorada, sempre mostrando os dentes. É uma menina-sapeca.
O casamento de Catarina
Eteni Barbosa
Sete horas da noite. Um carro aproxima-se lentamente e estaciona em frente à quinta casa da vila, às margens da BR-116, na cidade de Feira de Santana, Bahia.
- Chegaram?
- Chegaram, respondeu Candinha, fechando a porta da cozinha. Na verdade, ela estava pouco habilitada a dar detalhes sobre os visitantes. Quase não os vira.
Da cozinha, ouvia-se o arrastar das cadeiras no esgarçado assoalho de madeira. O médico, Fausto Loureiro, foi o primeiro a entrar na sala. Assentou-se na cadeira de balanço que descansava ao lado da cristaleira; a escrivã, Rosa Silva, ajeitava-se numa outra, ao pé da porta, enquanto outro homem que entrou pouco antes abria sobre a mesa, bem ao centro da sala, um grande livro esverdeado, meio desbotado pela ação das mãos - seus movimentos eram lentos e compassados. Era o juiz. Ao lado do livro, encostou delicadamente uma caneta e continuou em pé, a olhar o ambiente. Perto da porta da cozinha, após os cumprimentos, encostaram-se na parede a mãe, os irmãos e duas vizinhas. Ouvia-se, da sala, apenas o relógio a contar os minutos do inverno.
O ranger das velhas dobradiças da porta da cozinha anunciava a chegada de alguém. Era Catarina Sioh, uma mulher de ombros finos, fisionomia triste e envelhecida. Vestia-se com modéstia, como pedia a ocasião e a condição social. O cabelo curto, penteado sem capricho, dava-lhe um toque masculino e contrastava com o uso da época. Ao vê-la entrar, o médico e a escrivã levantaram-se. Caminharam em sua direção e o médico a conduziu à mesa. Acenando com a cabeça, ela cumprimentou o juiz e este, proferindo algumas palavras, deu início à cerimônia. Sinalizando para que se aproximasse, assinou primeiro o documento do cartório de registro civil, a irmã Judite, como testemunha, em seguida Catarina Sioh. Com a ponta da caneta, o juiz indicou uma linha pontilhada bem ao final da página. Ela não conseguia enxergar nada além de seus pensamentos. Não sabe o motivo, mas veio à mente tudo que havia vivido nove anos atrás.
Naquela noite fria, de 19 de agosto de 1965, Catarina estava realizando o sonho da maioria das mulheres da época: ter um lar e filhos. Mas daquela união civil ela não teria, nem uma coisa nem outra. A pessoa com quem se uniria estava no quarto ao lado sentenciado à morte.
A jovem mulher, com um sorriso pálido, inclinou-se sobre o livro e logo abaixo da linha destinada ao nome do esposo assinou: Catarina Sioh de Sousa Martins.